Segurança nos Blackberry expõe fronteiras da privacidade

A mais recente história em torno da privacidade e da segurança associada aos Blackberry demonstra como os diferentes Estados tratam a vida privada dos cidadãos.

Mais curioso ainda é notar como a utilização de um dispositivo móvel, liga, na mesma história Barak Obama, Sarkozy, a Comissão Europeia e economias emergentes como a China e a India.

Vamos por partes.

Recentemente várias operadoras, em vários países foram avisadas ou notificadas pelos respectivos serviços reguladores ou de segurança do Estado que, sem a monitorização dos e-mails associados ao serviço do Blackberry, teriam de encerrar este tipo de operações.

A ameaça está feita: na India, a Tata Teleservices e duas outras operadoras têm até 31 de Agosto para provar que conseguem monitorizar este serviço dos Blackberry. Caso contrário, cessará a autorização para comercializar este tipo de serviço.

Nos Emirados Árabes Unidos (EAU) o uso dos telemóveis Blackberry será suspenso a partir de 11 de outubro. Em causa estão preocupações de segurança nacional.

Em suma: a RIM – Research In Motion (empresa canadiana que fabrica e comercializa os Blackberry) corre o risco de deixar de servir, pelo menos dois países importantes para o seu mercado: a India e os EAU. Esta possibilidade teve como consequência a perda de mais de 13% da capitalização bolsista desde Agosto (quando emergiram os problemas no Médio Oriente).

A preocupação em torno de um telemóvel demasiado seguro apresentava contornos completamente diferente alguns anos atrás.

Em Janeiro de 2008, Barak Obama era aconselhado a largar o seu Blackberry. Aparentemente a segurança e invencibilidade do sistema da RIM não seria à prova de hackers mais habilidosos. O presidente das redes sociais era obrigado a isolar-se do mundo para proteger a sua vida privada e cumprir os deveres solitários de um homem de Estado. Para quem gosta de seguir a história Blackberry Obama basta pesquisar por  “barack obama blackberry” e apreciar os resultados dos motores de busca. Os detalhes apresentam fotos e longos artigos acerca da vida privada do presidente dos Estados Unidos.

Na verdade, a preocupação da Casa Branca era ainda mais totalitária e ia além da encriptação de mensagens. Desde o Watergate todas as comunicações escritas do presidente (incluindo e-mails) são mantidas e arquivadas como documentos de Estado. Conselheiros políticos pediam a Obama para não se expôr em demasia à curiosidade dos media e aos valores de transparência da democracia americana. Enfim, ao que parece os Blackberry não eram suficientemente seguros para o rigoroso protocolo dos serviços secretos norte-americanos.

Pouco seguro para uns, demasiado para outros.

Especialmente para Estados mais inseguros na sua democracia.

Como argumento para investigar a vida dos cidadões que utilizam o Blackberry, as autoridades indianas afirmam que os atentados terroristas de 2008 a Mumbai (com um balanço de cerca de 170 mortos), usaram os servidores encriptados de sistemas como o do Blackberry para coordenar as comunicações deste ataque que teve origem (claro) no vizinho Paquistão. Uma vulnerabilidade e argumento político igualmente explorado por países como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e a Indonésia.

O mais curioso é notar que estes países não estão sozinhos na luta contra o terrorismo inteligente que utiliza as comunicações encriptadas para executar os seus golpes.

Países insuspeitos que professam a liberdade, igualdade e fraternidade também tiveram direito a seu momento de paranóia.

Em 2007, uma agência de segurança francesa recomendou que tanto Sarkozy como os seus ministros deixassem de utilizar os serviços do Blackberry pois suspeitavam da falta de segurança das comunicações encriptadas. Os serviços de segurança franceses ficavam inquietos com a ideia de que algures nos Estados Unidos, Reino Unido ou Canadá alguém passava o dia a espiolhar as mensagens que circulam pelos servidores da RIM sediados nestes países.

Poderíamos estudar a fundo a geografia de segurança do Blackberry e verificar como cada Estado lida com a questão das comunicações encriptadas. Por agora, fiquemo-nos por algumas curiosidades. No Kuwait, por exemplo, a preocupação com o Blackberry limita-se ao acesso à pornografia. Ao que parece petróleo e mulheres desnudadas são uma combinação demasiado explosiva para mentes fertéis. A Rússia cortou o mal pela raiz e desde o primeiro momento que recusou a encriptação de dados (têm agora tempo para verificar, afinal, o que é a encriptação de dados?).

Finalmente, os germânicos tratam o assunto com pragmatismo: não existem leis a proibir a encriptação de dados e para aceder a mensagens privadas é necessária uma ordem do tribunal. Simples!

E qual a posição da Comissão europeia a este respeito? Para não ofender ninguém, respeita-se a liberdade individual e o liberalismo do mercado. Ou seja, dado que os Blackberry estão a gerar muito ruído e, bem vistas as coisas, as comunicações encriptadas são uma dor de cabeça, por que não permitir que os funcionários europeus acedam aos iPhones e aos HTC?

Ao que parece, não resta grande alternativa à RIM senão seguir a tendência imposta pelos Estados reguladores e prescindir das comunicações encriptadas.

Para quem tem um Blackberry, deixe cair de vez o tabu: não são só as escutas telefónicas que podem dar origem a polémicas e segredos de justiça. Mensagens de e-mail, mesmo as encriptadas, podem estar no leque de comunicações sujeitas a escrutínio. O que não quer dizer que o Big Brother esteja sempre a vigiar-nos, mas significa que a nossa interacção com dispositivos electrónicos deixa uma pegada digital que importa conhecer.

Será que vale a pena esperar até a 28 de Janeiro de 2011 (dia mundial da privacidade digital) para conhecer a sua pegada digital?

Por agora, confirme como a publicidade encara os dados privados dos utilizadores e vejamos como reage o mercado bolsista à resposta da RIM nas próximas duas semanas.

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About Eduardo Ribeiro (10 Articles)
Gosta de se definir como um gestor de projetos e jornalista. Desde 2008 que trabalha na área da comunicação eletrónica e na defesa do consumidor, alternando entre Lisboa, Bruxelas, Milão e Madrid consoante as necessidades de negócio. Obsecado convicto pela defesa do consumidor ainda não percebeu se o seu amor à camisola é por defeito da profissão ou porque a sua profissão já nasceu com defeito. Trata por tu os seguranças no aeroporto da Portela que o tranquilizam sempre que o iPad é engolido pelo tapete rolante. Durante as duas horas e meio que dura o vôo entre Lisboa e Bruxelas, alterna entra a escrita de relatórios, Business Cases e artigos mais sérios para o Cibertransistor. Desde 1997 que escreve sobre media e novas tecnologias. Apaixonou-se por esse hibrido que dá pelo nome de internet quando em Setembro de 1999 escreveu o "Manual de sobrevivência na Internet". Escreveu ainda durante vários anos para a "Telefonia Virtual" e orgulha-se de ter participado neste projeto que agitou cabeças e ondas radiofónicas. Nas horas vagas é ainda praticante amador das teorias da conspiração mas ainda não conseguiu reunir matéria suficiente para um livro off-line (já que on-line tem vários seguidores)

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